Procedimento de Instalação de Juntas em Flanges

Alinhamento, sequência de aperto e reaperto — conforme ASME PCC-1 e FSA/ESA

A maioria dos vazamentos em flanges industriais não é causada pela junta em si — é causada por erros na instalação. Superfície suja, flange desalinhado, sequência incorreta de aperto ou falta de lubrificação são responsáveis por mais de 70% das falhas de vedação em campo. Este guia apresenta o procedimento completo de instalação, com tolerâncias numéricas conforme o ASME PCC-1-2013 e o guia FSA/ESA Gasket Installation Procedures, além de um diagrama interativo da sequência cruzada de aperto.

Para os valores de torque a aplicar em cada passe, consulte o artigo Torque de Aperto em Estojos de Flanges Industriais.

Ferramentas e Equipamentos Necessários

Providencie todos os itens antes de iniciar a montagem. Usar ferramentas inadequadas é uma das causas mais comuns de aperto não controlado.

  • Torquímetro calibrado — manual, hidráulico ou pneumático, com certificado de calibração válido
  • Escova de aço — de latão se possível, para não riscar superfícies de vedação de inox
  • Lubrificante aprovado — compatível com o processo; fator k conhecido e documentado
  • Paquímetro ou calibrador de folga — para verificação do paralelismo dos flanges
  • Marca-tudo — para numerar os estojos antes do aperto
  • EPI: capacete, óculos de segurança e demais exigências da planta

Passo 1 — Limpeza e Inspeção

Nenhuma junta nova corrige uma superfície suja ou danificada. Esta etapa define se a montagem tem condições de seguir.

  • Remova todo material estranho das faces de vedação, estojos, porcas e arruelas. Use procedimentos de controle de poeira da planta.
  • Inspecione estojos, porcas e arruelas quanto a rebarbas, trincas ou corrosão. Substitua qualquer componente com defeito.
  • Inspecione a superfície de vedação do flange quanto a empenamentos, riscos radiais ou marcas de ferramenta que impeçam o assentamento correto da junta.
  • Inspecione a junta — deve ser nova, sem dobras, amassados ou defeitos visíveis.

Defeitos admissíveis na superfície de vedação do flange

Os critérios abaixo se referem exclusivamente aos defeitos no metal do flange — riscos, mossas e marcas de ferramenta na face de assentamento. Não se aplicam à junta, que segue regra simples e absoluta: qualquer junta com defeito visível (dobra, amasso, risco, corrosão) deve ser descartada e substituída por uma nova.

O ASME PCC-1-2013 estabelece limites de profundidade de defeitos no flange em função da largura da superfície de vedação (w) e da posição radial do defeito. O diagrama abaixo mostra as quatro zonas concêntricas — do centro para a borda — e os limites para cada tipo de junta:

Defeitos admissíveis na superfície de vedação — ASME PCC-1-2013 furo w = largura total w/4 w/2 3w/4 rd < w/4 Rígida: < 0,76 mm Suave: < 1,27 mm w/4 a w/2 Rígida: < 0,25 mm Suave: < 0,76 mm w/2 a 3w/4 Rígida: não permitido Suave: < 0,13 mm rd > 3w/4 Não permitido (rígida e suave) Vista frontal da face de vedação — rd = distância radial do defeito ao centro — ASME PCC-1-2013

O que é "w" em cada tipo de face de flange:
Flange RF (Raised Face): w é a largura do ressalto — a faixa anular elevada onde a junta assenta. Defeitos fora do ressalto não são avaliados por este critério.
Flange FF (Flat Face): w é toda a face plana entre o furo e o diâmetro externo dos furos dos estojos. A junta cobre essa área inteira, portanto w é significativamente maior e as zonas se distribuem por uma área mais ampla.
Flange RTJ (Ring Type Joint): a superfície avaliada é o canal (groove) usinado onde o anel metálico assenta. As tolerâncias são ainda mais restritivas — riscos radiais no canal são praticamente sempre inaceitáveis, pois o anel metálico não compensa irregularidades superficiais.

Juntas rígidas: Camprofile, Ring Joint, Metalbest 923/927, papelão hidráulico com espessura < 1,6 mm.
Juntas suaves: espirais Metalflex, Graflex cortado, Tealon, papelão hidráulico com espessura > 1,6 mm.

Passo 2 — Alinhamento dos Flanges

Alinhe faces e furos sem uso de força excessiva. Forçar o alinhamento com os próprios estojos é uma das causas mais frequentes de esforços residuais na junta e vazamentos precoces. Se o desalinhamento for excessivo, reporte e corrija a tubulação antes de prosseguir.

≤ 1,5 mm Centralização (offset lateral) ASME PCC-1 / Veiga Fig. 12.11
≤ 0,8 mm Paralelismo (diferença A−B entre extremidades opostas) ASME PCC-1 / Veiga Fig. 12.12
≤ 10% Força de aproximação (% do aperto final) ASME PCC-1 / Veiga Fig. 12.13
≤ 3 mm Desalinhamento circunferencial dos furos ASME PCC-1 / Veiga Fig. 12.14
⚠️ Flanges que só alinham com força nos estojos estão transferindo tensão de dobramento para a junta. Isso gera carga assimétrica, esmagamento irregular e vazamento mesmo com torque correto.

Passo 3 — Instalação da Junta

  • Confirme que a junta é do tamanho e material especificados para a aplicação e compatível com o acabamento superficial do flange
  • Insira a junta cuidadosamente entre os flanges, sem amassar, torcer ou arrastar
  • Certifique que a junta está centralizada entre os flanges — descentralização é causa direta de vazamento
  • Não use cola, vedante ou agentes de fixação na junta ou na face dos flanges, salvo especificação expressa do fabricante da junta. Se imprescindível, use spray adesivo apenas em um lado e em quantidade mínima
  • Aproxime os flanges garantindo que a junta não seja mordida ou danificada

Passo 4 — Lubrificação

A lubrificação é mandatória. Sem ela, até 80% do torque aplicado é consumido pelo atrito e nunca vira força de aperto na junta.

  • Use apenas lubrificante aprovado e com fator k conhecido — o k usado no cálculo do torque deve corresponder ao lubrificante efetivamente aplicado
  • Aplique em abundância e de forma uniforme na rosca, nas superfícies de apoio das porcas e nas arruelas
  • Garanta que o lubrificante não contamine a face de vedação do flange nem a junta
  • Use arruelas temperadas ASTM F436 — arruelas de aço carbono não temperadas podem reduzir em até 30% a eficiência do aperto por torquímetro
CondiçãoFator kReferência
Aço liga lubrificado (uso geral)0,20ASME PCC-1-2013
Revestido com PTFE0,15ASME PCC-1-2013
Lubrificante MoS₂ (Molybdenum)0,15ASME PCC-1-2013
Seco, sem lubrificação0,20 a 0,30Referência de campo
Corroído, sem lubrificação> 0,30Referência de campo

Passo 5 — Sequência Cruzada de Aperto

O método cruzado (estrela) em múltiplos passes é o procedimento padrão do ASME PCC-1 e do guia FSA/ESA. Garante distribuição uniforme de carga na junta e evita empenamento dos flanges.

Diagrama interativo — selecione o número de estojos e o passe

Passe 0 — apertar todas as porcas à mão em sequência cruzada. Estojos devem ultrapassar as porcas em ≥ 2 fios. Força ≤ 10% do torque final.

Os cinco passes

  1. Passe 0 — Manual: todas as porcas à mão em sequência cruzada. Estojos devem ultrapassar as porcas em ≥ 2 fios. Força máxima: 10% do torque final.
  2. Passe 1 — 30% do torque em sequência cruzada numerada. Verificar paralelismo.
  3. Passe 2 — 70% do torque em sequência cruzada numerada. Verificar paralelismo.
  4. Passe 3 — 100% do torque em sequência cruzada numerada. Verificar paralelismo.
  5. Passe 4 — 100% em sequência circular até todas as porcas pararem de girar.
⚠️ Não pule o Passe 4. Ao apertar um estojo, os vizinhos perdem parte do aperto — é a dispersão do aperto (bolt scatter). O passe circular final compensa esse efeito. A maioria dos vazamentos por aperto insuficiente ocorre porque a instalação parou no Passe 3.
Para flanges com menos de 12 estojos, use sempre o método cruzado clássico. Para flanges com 12 ou mais estojos, o método alternativo com 4 ou 8 estojos-guia (ASME PCC-1 Alternative Assembly Pattern 3) pode reduzir o tempo de instalação sem comprometer a qualidade do aperto.

Passo 6 — Reaperto na Partida

Após a instalação, o relaxamento da junta e dos estojos é inevitável. O reaperto na partida compensa essa perda antes que o sistema entre em operação plena.

Quando fazer

  • Quando a temperatura dos flanges ou estojos atingir entre 150 °C e 230 °C
  • Ou dentro de 24 horas após a partida quando a temperatura de processo for menor que 150 °C

Como fazer

  • Sempre a temperatura ambiente e pressão atmosférica
  • Não reaperte juntas elastoméricas sem amianto após exposição a alta temperatura — consulte o fabricante da junta
  • Sistemas com ciclo térmico intenso podem precisar de reapertos periódicos ou instalação de conjuntos de molas-prato (Live Loading)
O reaperto na partida não é o mesmo que o reaperto a quente (hot bolting) ou o reaperto em operação — esses procedimentos são regulados pelo ASME PCC-2 e exigem cuidados adicionais de segurança.

Checklist Completo de Campo

Use o checklist abaixo para garantir que nenhuma etapa foi omitida. Dividido em cinco fases: pré-instalação, alinhamento, instalação, aperto e pós-instalação.

Checklist completo com critérios e referências normativas — ASME PCC-1-2013 e FSA/ESA:

Referências

  • Veiga, J. C. — Juntas Industriais, 8ª ed., Teadit, 2019 — Capítulo 12: Instalação
  • FSA / ESA — Gasket Installation Procedures — Assuring Joint Integrity and Maximum Safety, Fluid Sealing Association / European Sealing Association, 2000
  • ASME PCC-1-2013 — Guidelines for Pressure Boundary Bolted Flange Joint Assembly
  • ASTM A193 / A194 — Materiais para estojos e porcas de alta resistência
  • ASTM F436 — Arruelas estruturais temperadas

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